Arrumando a mala.

Era um dia de sexta feira e o barracão estava cheio de lixo, ou para ser politica e ecologicamente correta, material reciclável.

O cheiro não era forte, o lixo estava arrumado, cada espaço do galpão tinha uma placa que dizia o tipo de resíduo e se havia sido prensando ou não, pouco a pouco alguns rostos começaram a aparecer.
Era dia de pagamento.
Havia um rosto, de uma mulher que não sei se tinha 50 ou 60 anos, por que a vida já havia judiado muito de seu corpo. Um rosto marcado, cheio de vincos, como uma folha de papel muitas vezes dobrada, uma pele ressecada, lábios sem cor e uma roupa de cor indefinida, não sei se era preto ou azul e embaixo do boné um lenço escuro.
Ela é uma daquelas mulheres curvadas e cansadas que passa todos os dias por nós, com o seu carrinho feito de uma grande armação de ferro e que enche de papelão, garrafas pets, latinhas amassadas e sacolas plásticas.Uma vida triste e abatida, habitando num corpo humano quebrado em sua dignidade.

Havia mulheres jovens sem esperança, mulheres idosas e sorridentes, mulheres de idade mediana  escolhendo apenas permanecer , sem mudanças, apenas continuando a viver…

Meu coraçao gritava: O meu Deus nao recicla, restaura! Nao somos lixo, somos a obra de arte Dele! Nao queria ser contaminada pela palavra reciclagem. A mensagem nao era por ai!

Então eu lutava em meu espírito para ver  com os olhos Dele, e Ele começou a me abrir os olhos para Ver e nao apenas Olhar o ambiente.E enquanto a missionária tocava, pude ver uma lágrima escorrendo do rosto bonito da jovem sem esperança e uma parede que se erguia nos olhos da mais velha. Alguém que estava aprendendo a se defender dos sentimentos, começando a endurecer…E outra, que havia sido endurecida pelas dificuldades e pancadas da vida levantar muralhas . Como alcança-las?

Teria que falar em alguns segundos e perguntei a Deus : Senhor, o que o Senhor quer que eu ministre? Como posso encorajar as pessoas a lutarem por uma vida melhor e ao mesmo tempo falar da misericórdia sobre a qual me falou ? Eu não sabia como começar…

Olho para aquelas mulheres mais uma vez e começo a entender que como eu, muitas vezes elas devem ter olhado para a situação em que estavam e o único desejo era arrumar a mala e ir para qualquer lugar.
Sim , “A mala”! É por ai… Senti aquele arrepio na espinha o Espírito Santo a me confirmar o caminho da pregação.

Fugir parece ser sempre à única saída quando não temos saída! Arrumar a mala…

Pouco a pouco começo a falar com aquelas pessoas machucadas em seus espíritos sobre as muitas vezes em que não encontramos a saída e desejamos fugir, pude ouvir alguns suspiros de concordância e então entendi, precisava falar do Deus que agiu em minha vida , colocando limites , organizando a bagunça da vida e do meu coração, e de quantas vezes precisei parar para que Ele, o soberano, colocasse tudo em ordem. Precisava compartilhar, não apenas pregar.

A partir dai ,dividi com elas sobre o quanto foi necessário preparar o meu coração para que Deus arrumasse a minha mala de  emoçoes desajustadas, de erros ,acertos, culpas, perdas e mágoas; parar tudo, ouvir, deixar Deus me amar, agindo, com um amor paciente e misericordioso ….

E percebi então, que aquelas mulheres precisavam ser tocadas. Mais do que palavras elas queriam aquele amor prático, e tal qual João Batista, eu e minha colega missionária, precisávamos preparar o caminho… A queda de braço entre elas e a vida de escolhas ruíns tinha que terminar ali.

Deus sussurrava em meu ouvido: Até aqui, foi na força do braço de vocês, me deixem entrar em suas vidas e será na força do meu braço! 
E então um versículo saltou aos meus olhos e eu já sabia o que fazer. Portas precisavam ser abertas, muros precisavam cair…

Eis que estou a porta, e bato;se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta,entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo. (AP 3:20)

E num refrão único, entre risos e lágrimas ,católicos, evangélicos e outros, estávamos todos  juntos a clamar ao som do violão que Jesus entrasse em nossas casas e arrumasse  a nossa vida e família  , curando as nossas feridas.Ele sempre responde àquele que clama!

Naquele instante, numa sucessão de abraços, mulheres catadoras de Lixo reciclável, voluntários do projeto, e até um padre, presente a nossa reunião; todos éramos naquele precioso momento apenas UM,  Um corpo . Uma noiva com marcas, erros, roupas sujas e amarrotadas, reconhecendo que precisávamos do Noivo, Jesus, para trocar as nossas vestes e em misericórdia e graça, nos ataviar com linho branco de atos de justiça.

Nele as diferenças são anuladas, e Nele podemos conduzir outros a vida abundante e por Ele podemos ir a lugares onde nunca estivemos, unindo as nossas marcas as marcas de outras vidas, por que Ele veio para todos e se não fizermos a nossa parte, por quem teremos vivido?  Para que?

A alegria inundou aquele lixão e creio que no meio do lixo, Jesus  sorria  , por que Ele está em nós, indo a todos os lugares , sejam eles templos ou não… Naquela sexta feira, do lixão subia um perfume de incenso suave: O cheiro das orações. 

Miss.Andréa Rebouças


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