Quando desistir não é uma opção…

Na madrugada fria de 16 de setembro, passos ecoam nas ruas, uma mulher apressada acompanhada de alguns jovens que ela mesma tirou um dia das ruas, avança em direção a um som que eu não escuto e um rosto que não vejo.

Enquanto durmo embaixo de dois cobertores bem quentes, aquela mulher se espanta em mais uma vez ver, que há um rapaz com pouca roupa e muito frio…

Ela havia levado na noite anterior uma coberta para ele, que não demorou muito a ser trocada por uma pedra de crack… Ela pára um pouco, conversa e logo se aproximam alguns policiais, o rapaz pensa em correr, assustado olha pra ela com aquela pergunta muda de quem precisa de respostas sobre o que fazer, pra onde ir… A mulher explica aos policiais quem ela é , e eles a deixam e seguem o seu caminho.

Aquela mulher caminha mais um pouco, distribui sopa e simpatia, fala de amor, perdão e escolhas….Ninguém é obrigado a segui-la, mas ela esta sempre aqui e ali,noite após noite, distribuindo sopa, as vezes pão, um café , ou só atenção em parar e ouvir , confortar e encorajar.

Essa mulher é uma missionária, casada ,com filho  e muitas historias pra contar. Historias de amor, de transformação , de lutas, perseverança e fé.

Há cerca de 20 anos trabalhando em Jocum, ela já fez tantas coisas e tocou tantas vidas ,que apenas um grande e pesado livro poderia registrar .

Quando olho pra ela, posso reconhecer Jesus, ela o conheceu aos seis anos de idade, cresceu com ele e anda com ele, e de tanto andar em sua companhia se tornou muito parecida…Os mesmos passos, o mesmo amor pelos rejeitados, desajustados,esquecidos, desabrigados, doentes e perdidos.

Ela não tem recursos próprios, mas todas as suas fontes estão em Jesus. Fonte de onde tira energia , fôlego e graça para continuar…

Abrigando pessoas que tira da rua em casa, um dia sai para atender aquelas vozes e rostos que ninguém escuta ou vê, mas que ela como mãe é guiada como que por instinto a esses sons , e ao voltar de uma noite longa e cansativa, encontra sua casa vazia…

Vazia de todos os poucos, mas preciosos pertences que sua família tinha, ate mesmo a guitarra do filho que ainda não tinha terminado de pagar…Alguém que ela abrigara havia levado tudo embora.

A essa altura aquela mulher por um breve segundo pensa em desistir, parar…Mas ela não pode mais, não há nada que ela e sua família tenha que ela não deseje que os outros tenham também, não há nada que ela não já tenha visto que a impeça de perdoar alguém que ela sabe que ainda pode ser salvo. E estao ela descobre,desistir nao é mais uma opçao…A sua entrega foi completa.

Ela não desiste, e eu não sei até onde ela conseguirá ir…

Talvez ao ler tudo isso, você se pergunte se estou mesmo falando de alguém real ou se é apenas ficção, mas a verdade é que essa mulher é alguém comum, que peca todos os dias, em pensamentos, ações e que também se ira, que tem defeitos e que ao contrario de quase toda mulher religiosa, não é certinha,organizada,nao usa saias , cabelos compridos e nem anda com uma bíblia na Mao. Seu vocabulário é mais semelhante ao das pessoas que ela conduz a Jesus, alimenta, socorre, acolhe, restaura…

O mais incrível nessa mulher é que ela em toda a sua humanidade, com todas as suas imperfeições confronta  a todos nós, mostrando com sua vida que o evangelho é possível, que ser cristã e viver o cristianismo não é algo complicado demais, difícil demais…A essência é muito simples!

Santidade não esta em como ela é, mas como ela vive…

Na minha ultima oração da noite eu peço por ela, peço a Deus que a proteja, supra e fortaleça…

E sinto paz , por que sei que embora ainda não faça um milésimo do que ela faz, posso contar a você e você pode contar a outros ,e ela pode inspirar a muitos a andarem com Jesus e serem tão parecidos com ele, como ela …

E essa mulher em sua generosidade ainda me conforta diante do meu sentimento de impotência frente a sua vida que me inspira e me confronta, ela me diz com muita doçura e simplicidade: Nosso trabalho é apenas diferente.

Não vejo acusação em seus olhos, orgulho ou  dor, apenas urgência em ir, escutar as vozes que eu não escuto, alimentar, acolher, agasalhar, amar…

Amanha é outro dia, e certamente não será igual a esse. Haverá um perdido a menos, por que alguém que andou nos passos de Jesus, o encontrou.

E ele ,o que havia se perdido, estará assentado, limpo, vestido, em perfeito juízo e livre. Livre para recomeçar, por que alguém que conhecia Jesus, percorreu as ruas de uma grande cidade brasileira, numa noite fria e não desistiu dele.

Que amor é esse!

Andréa Rebouças / Setembro de 2011


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